Empresas Exportadoras e os Desafios trazidos pela Pandemia

9 Novembro 2020
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Ricardo Knoepfelmacher  é Sócio Fundador da RK Partners e membro do Conselho Superior da Funcex. Possui Master´s in International Management (Thunderbird School)

A eclosão da pandemia da Covid-19 tem suscitado comparações com outras tragédias no campo da saúde pública. Alguns recorrem a Idade Média e sua “peste negra”; outros a eventos mais recentes como a “gripe espanhola”. A despeito de todo o avanço tecnológico que caracteriza o momento que vivemos, a Covid-19 traz um desafio que coloca à prova nossa capacidade de reelaborar crenças e convicções estabelecidas. Trata-se de um ponto de inflexão, que vai trazer impactos para diversos aspectos do comportamento humano, sendo um deles a atenção voltada para aspectos do cotidiano que até então eram vistos, mas não enxergados. Questões que estavam relegadas a segundo plano ganham relevância na nova dinâmica que tivemos que imprimir ao nosso dia a dia em função desse novo vírus. Uma delas refere-se à visibilidade de profissionais que prestam serviços fundamentais para a nossa existência, como os enfermeiros, e os trabalhadores que fazem coleta diária de lixo em nossas residências.  Em meio à pandemia, esses profissionais mantêm diariamente suas atividades, mesmo sob o risco de contaminação.

Esse talvez seja um dos poucos aspectos positivos da Covid-19: um olhar mais atento para o cotidiano. No mais, temos um balanço terrível com mais de 130 mil pessoas mortas no Brasil e famílias destroçadas pelas perdas. No plano econômico, estamos verificando significativa redução da atividade econômica, que vem acompanhada de desemprego para milhões de brasileiros.  Iniciativas governamentais como o Auxílio Emergencial servem para mitigar a aflitiva situação de quem, de uma hora para a outra, vê-se sem nenhuma condição de sustento. Mas, infelizmente, é certo que a grande maioria das famílias perderá renda, e que empresas enfrentarão sérias dificuldades.

Estudos estimam que mais de 60% das famílias brasileiras não têm condições de honrar suas dívidas, mesmo com os juros mais baixos que observamos hoje.  O quadro de incapacidade de pagamento não é diferente para as empresas. Ao menos 500 grandes organizações brasileiras – com faturamento anual acima de R$ 500 milhões e dívidas de mais de R$ 300 milhões – terão de passar por processo de renegociação de débitos, em decorrência da crise detonada pela Covid-19. Diante de situação de endividamento, em um cenário de insegurança com relação ao futuro da sua renda, a reação, quase que natural dos trabalhadores, é adiar gastos. As empresas, por sua vez, temerosas com relação ao futuro do consumo, paralisam os investimentos e estudam demissões.  Recentemente, o jornal Folha de São Paulo divulgou pesquisa nesse sentido. Cerca de 40% de cem presidentes entrevistados previam cortar mais de 10% dos investimentos anteriormente planejados. De cada dez presidentes, quatro diziam que iriam fechar postos de trabalho ao longo dos próximos 12 meses.

O fato é que a pandemia da Covid-19 colocou as empresas brasileiras em um contexto sem precedentes, diante do qual nem mesmo a grave crise de 2008 serve de parâmetro. Temos hoje um choque de ausência de demanda, que mantém, há meses, setores inteiros – como aviação e entretenimento – parados com queda vertiginosa no faturamento. O ineditismo reside justamente na imprevisibilidade do fim da crise. Das mil maiores empresas brasileiras, 240 foram gravemente afetadas. Das pequenas, muitas já desapareceram, pois, em geral, os pequenos empreendedores têm, no máximo, dois meses de caixa para sobreviver. Já começa a acontecer uma corrida ao judiciário para evitar pagamento de dívidas e os pedidos de recuperação judicial já estão 35% acima do verificado no ano passado e devem aumentar, apesar de se restringirem – pelo seu custo e complexidade – às empresas médias e grandes.

Os setores mais afetados e com grandes incógnitas sobre o futuro são aviação, entretenimento, restaurantes, turismo e hotelaria. No varejo, o aumento do faturamento com comércio eletrônico não compensa a queda nas lojas físicas, pois é um setor com margem muito baixa e que deve enfrentar grandes problemas.

No plano externo, os sinais também são de alerta. A pandemia deverá ter efeitos muito negativos sobre a economia global. Os reflexos já começam a ser sentidos no Brasil, no que se refere às exportações. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior, órgão do Ministério da Economia, no mês de agosto/2020, somente o setor agrícola apresentou crescimento (14,6%) das exportações, em comparação com o mesmo mês do ano anterior. A indústria extrativista apresentou queda de 7,7%; e a indústria de transformação viu as vendas para o exterior encolherem em 57,9%.  No acumulado entre janeiro/agosto deste ano, comparando com igual período do ano anterior, as exportações do setor agropecuário cresceram 18,9%; enquanto a indústria extrativista e a indústria de transformação apresentaram, respectivamente, quedas de 8,6% e 14,2%. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) prevê que a desaceleração do comércio internacional provocada pela pandemia vai causar uma retração das exportações do Brasil entre 11% e 20% em 2020, dependendo da duração e impacto da pandemia, alcançando um nível inferior a US$ 200 bilhões. Por outro lado, a desvalorização do câmbio favorece os exportadores e o Brasil está importando muito menos, o que permitiu um superávit recorde de US$ 6,6 bilhões em agosto.

Mas o quadro de maré baixa do mercado global representa significativa perda de receita para as empresas exportadoras brasileiras. Como se não bastasse, existem ainda questões que causam grandes impactos na performance como restrição de crédito, mudanças de hábitos de consumo e novas barreiras sanitárias. Estudos apontam também para a queda de produtividade, uma vez que trabalhadores parados tendem a perder habilidades, e máquinas sem uso se deterioram. Tudo isso pode vir a comprometer seriamente o futuro das empresas. 

Nos últimos dez anos, estive à frente de mais de 120 reestruturações empresariais e renegociações de dívidas superiores a R$ 180 bilhões. Apesar de desenvolvermos soluções sob medida para cada caso em que atuamos, nossa experiência permite identificar algumas características comum das empresas que entram em colapso. Uma delas é a incapacidade de leitura dos primeiros sinais de problema. Uma mudança brusca de cenário, com frustração de receitas projetadas, já devia fazer soar os alarmes, mas quase nunca isso acontece. Outra questão frequente é a demora em buscar ajuda. Em alguns casos em que atuamos, identificamos claramente uma postergação da decisão de encarar o problema, de buscar ajuda, e dar início a um processo de revisão do negócio e de suas premissas. Perde-se tempo, recursos são consumidos, e a solução do problema torna-se mais difícil, quando não inviável.   

Vivemos uma crise sem paralelo na história, cujo desfecho ainda é incerto. Acredito que, mesmo após o desenvolvimento de várias vacinas nos próximos meses, as condições pré-pandemia dificilmente serão retomadas em curto espaço de tempo. Uma mudança que parece ter vindo para ficar – pelo menos no médio prazo – é a redução do fluxo de pessoas e mercadorias no mundo. Além de restrição de circulação imposta por barreiras sanitárias, a mudança de hábitos deve impactar diretamente o nível de demanda dos países que tradicionalmente compram produtos e matéria-prima do Brasil.

Esses sinais já foram dados, e as empresas brasileiras exportadoras precisam vê-los e interpretá-los devidamente. Vamos experimentar uma grande recessão global que trará como consequência o aprofundamento das desigualdades entre as pessoas, e também entre as empresas. Deverá ocorrer um grande movimento de consolidação, em que os mais combalidos serão fagocitados pelos menos combalidos. Nesse processo, as empresas dos países em desenvolvimento, com certeza, serão mais penalizadas.

Por isso, é fundamental que as empesas promovam uma detalhada análise da sua situação. O modelo em que estavam estruturadas pode não ser mais adequado para a realidade que se impõe. Há empresas que não estão mal geridas ou com um problema estrutural, mas que terão que rever seus planos de negócios em função de mudança de praticamente todas as premissas. Vai ser preciso rever conceitos, encontrar novos mercados, encontrar novas fontes de financiamento, enfim ter uma nova estratégia. E tudo isso vai ter que ser feito de forma ágil, sob o risco de perda de oportunidades. Muitas vezes é necessária a readequação do perfil das dívidas (estrutura de capital). A empresa pode ter produtos atualizados, competitivos, mas em função de frustração de receita – como tem ocorrido agora função da redução da atividade econômica nas principais economias do mundo – pode precisar de assessoria para reestruturar seus passivos financeiros, promovendo uma renegociação organizada com os credores.

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