Competitividade e Custo Brasil: Desafios muito além de Máquinas e Equipamentos

26 Janeiro 2021
/ Artigos

Dr. José Velloso
Presidente executivo da Abimaq

José Velloso Dias Cardoso é graduado em engenharia mecânica pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Em 1989, formou-se em administrador de empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV), e nesta mesma instituição concluiu seu mestrado em finanças e marketing.

Iniciou sua atividade profissional em 1984, como executivo da empresa Voith SA Máquinas e Equipamentos. Em 1992, assumiu a diretoria da empresa Power Transmissores Industriais do Brasil S/A (PTI), permanecendo até 2013.

Paralelamente, foi nomeado vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq/Sindimaq) de 1998 a 2007 e 1º vice-presidente de 2007 a 2013 – além de ocupar os cargos de diretor eleito da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp); membro do Conselho Deliberativo da Investe SP – Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade; membro do Conselho Deliberativo da Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip); membro do Fórum Nacional da Indústria da CNI; e membro do Conselho Superior da Funcex.

Em 2013, assumiu a presidência executiva da Abimaq, entidade representativa da indústria brasileira de máquinas e equipamentos, setor composto de cerca de 8 mil empresas que, no seu conjunto e apesar da atual crise econômica, produziram, em 2020, bens em valor superior a R$ 144,5 bilhões, exportaram US$7,3 bilhões, empregando 326 mil trabalhadores altamente qualificados.

PERGUNTAS

1. Qual a importância e representatividade do setor de máquinas e equipamentos no momento para o Brasil?

Entre os países em desenvolvimento e economias industriais emergentes, o Brasil é o segundo maior produtor de máquinas e equipamentos. Conforme dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA), o setor fabricante de máquinas e equipamentos, excluindo os veículos automotores, caminhões, ônibus, plataformas, navios e aeronaves, conta com quase 48 mil empresas – 28% da Indústria de Transformação do país –, distribuídas majoritariamente nas regiões Sul e Sudeste.

O setor se destaca pelo seu papel como difusor de progresso técnico ao estar presente em todas as cadeias produtivas da economia. Sua presença aumenta consideravelmente os efeitos de encadeamento, ampliando o mercado interno e, consequentemente, o potencial de geração de emprego qualificado e renda. O setor fornece para toda a economia com destaque para indústria, agricultura, infraestrutura, produção mineral e óleo & gás.

2. Quanto ao progresso técnico, qual o significado da inovação para o setor?

A indústria de máquinas e equipamentos é o difusor de novas tecnologias para todos os demais setores econômicos, portanto, a inovação está no DNA do setor. Com o advento da Indústria 4.0 essa importância fica ainda maior, porque é a partir da comunicação máquina a máquina, da coleta de dados nas linhas de produção, da automação que se viabiliza a grande transformação digital em todos os setores. É a inovação em máquinas agrícolas que viabilizou, em outros fatores, a revolução da produtividade agrícola e a agricultura de precisão, por exemplo. Do setor químico ao têxtil, do setor de
construção civil à mineração, da infraestrutura portuária à exploração de petróleo. Em todos os setores econômicos para que se desenvolvam em seus produtos e processos, estamos falando em inovação em máquinas e equipamentos.

3. No tocante ao futuro, tanto no mercado interno, quanto no externo, quais as oportunidades existentes num cenário pós-covid?

A pandemia da Covid-19 trouxe algumas oportunidades relacionadas a negócios e investimentos na área de saúde, médico-hospitalares, telemedicina, e-commerce, novos formatos de logística, teletrabalho (home office), novas formas de intermediação e de comunicação, 5G, automação, Indústria 4.0, serviços delivery, inteligência artificial entre muitas outras, que certamente ganharão ainda mais protagonismo em razão da reorganização do mercado de consumo e da forma de produção. Sob a perspectiva do comércio global, a atual crise impôs como desafio garantir que os serviços de transporte, os portos e as alfândegas permanecessem operacionais e tivessem suas capacidades de operação efetivamente
asseguradas. A necessidade de fazer frente a essas dificuldades levou a um aumento expressivo de medidas de facilitação do comércio, visando à celeridade do despacho aduaneiro e ao trânsito de mercadorias. Caso essas tendências sejam consolidadas no pós-pandemia, poderá ser observada uma aceleração do processo de convergência nos controles e procedimentos relacionados às operações de comércio exterior. Isso certamente pode trazer benefícios ao setor produtivo pela redução dos custos de transação por meio da simplificação e desburocratização dos procedimentos.

4. Para competir aqui no Brasil e no exterior, competitividade, produtividade e lucratividade são fundamentais. A partir dessa afirmação, qual a visão do setor sobre:

  • Competitividade, e quais os desafios a serem superados?

A Abimaq monitora há décadas as assimetrias impostas pelo Custo Brasil ao produtor nacional. Mas dentre as inúmeras relacionadas, três delas representam cerca de 80% do problema e precisam ser priorizadas para que o produtor nacional possa ser mais competitivo – estamos falando de assimetrias entre se produzir no Brasil e na Alemanha. O custo das matérias-primas é um dos fatores que mais pesam entre os dimensionados, pois nossos concorrentes no exterior acessam suas matérias-primas com valores de 30% a 60% mais baixos que os fabricantes no Brasil, em razão das elevadas tarifas de importação; o custo do capital (de giro e para investimentos) é outro fator que pesa no processo de produção e
comercialização do bem, a queda da taxa básica de juros, Selic, aos atuais níveis diminuiu o diferencial de custo do dinheiro, mas as taxas de juros ao tomador final continuam elevadas; outro componente do Custo Brasil, que tira parte importante da competitividade do bem nacional, é o sistema tributário que onera a produção de todos os elos da cadeia produtiva. A Reforma Tributária é uma das principais formas de tornar o país mais produtivo, confiável e seguro, atraindo assim investimentos internos e externos. Seus resultados podem ser traduzidos em cinco palavras: simplificação, equidade, neutralidade, transparência e justiça. A Abimaq defende a urgência de se realizar essa reforma. Para tornar o tema acessível a toda a sociedade, nós criamos uma campanha que pode ser acessada em http://reformatributaria.abimaq.org.br. Os benefícios serão muitos, entre eles, desoneração dos investimentos e das exportações, resultando em uma melhora da nossa competitividade para a inserção do Brasil nas Cadeias Globais de Valor (CGVs). Além de estratégias para a melhoria do ambiente de negócios do país, a redução nos custos de operações de comércio exterior pela simplificação de procedimentos relacionados a esta área é um elemento central para o incremento da competitividade do setor produtivo.

  • Produtividade, e como identificar e remover obstáculos?

A melhoria da produtividade do trabalho deriva de diversas ações isoladas ou combinadas, dentre elas, qualificação da mão de obra, modernização e ampliação do estoque de capital, readequação das estruturas produtivas tornando-as mais enxutas, melhora na gestão. Mas um salto importante ocorre exclusivamente pelo aumento do estoque de capital fixo por operário. O Brasil vem há anos reduzindo o seu nível de investimento; atualmente a formação bruta não é suficiente para substituir o capital depreciado, refletindo em reduções do estoque e, consequentemente, da produtividade. Outra razão importante é o elevadíssimo custo de capital para investimentos no Brasil.

  • Lucratividade, e como contribuir para a redução do Custo Brasil de maneira sustentável?

O primeiro passo para a redução do Custo Brasil foi dado quando a Secretaria de Produtividade, Emprego e Competitividade (Sepec) do Ministério da Economia reconheceu e quantificou todas as assimetrias que anulam a competitividade da indústria nacional e, por meio de um decreto, se comprometeu com a sua redução. Os passos seguintes precisam ir na direção da eliminação dos problemas abrangentes e de maior peso. Serão necessárias reformas estruturantes. O Executivo precisa dar prioridade a esta agenda.


5. Como enfrentar a concorrência externa em um cenário internacional cada vez mais complexo, com financiamentos e subsídios variados?

No plano da competitividade no mercado internacional, marcado pela ampla utilização de políticas industriais de incentivos por importantes concorrentes do Brasil e diante de um quadro no qual muitos destes países podem contar com financiamentos a juros competitivos, é necessário que sejam mobilizados esforços para a estruturação de um sistema oficial de apoio às exportações efetivo. Além das questões sobre a garantia de recursos para este sistema, existe o desafio de ampliar o acesso a mecanismos de financiamento e seguros, sobretudo para as pequenas e médias empresas. É necessário um aperfeiçoamento desse mecanismo, conferindo aos processos de financiamento e garantias a transparência e previsibilidade que lhe é devida para assegurar as operações de comércio exterior – tema negligenciado e que parece não estar nas prioridades. No plano interno, fazer face a políticas de incentivos industriais requer o fortalecimento de mecanismos de combate a práticas desleais de comércio ou a eventuais surtos de importação que comprometam o equilíbrio do mercado nacional. Para isso, devem estar à disposição dos produtores nacionais instrumentos sólidos de defesa comercial, com procedimentos e metodologias que viabilizem o acesso aos instrumentos de defesa comercial também às indústrias fragmentadas, como as do setor de máquinas e equipamentos. Este setor não conta com nenhuma medida antidumping por conta da burocracia, o alto nível de exigências e pelos elevados custos envolvidos no processo.


6. Para vender máquinas e equipamentos, é preciso oferecer ao comprador financiamento, garantias e seguros.

  • Para vender para o mercado interno, qual o cenário atual?

Financiamento é parte do preço da máquina em qualquer economia. No Brasil, nos últimos anos, com as taxas de juros de longo prazo para financiamento do ativo fixo acompanhando as taxas de retorno dos investimentos em títulos públicos, a opção foi, para as empresas com elevado capital próprio, financiar suas vendas, assumindo todos os riscos inerentes ao negócio. O resultado da pesquisa de “Radiografia do Financiamento para Comercialização de Máquinas e Equipamentos” realizada pela Abimaq, no período de 24 de setembro a 16 de outubro de 2020, trouxe informações que ajudam no diagnóstico deste quadro. A sondagem apontou que 76% das vendas de máquinas e equipamentos no mercado doméstico ocorreram com recursos próprios – seja por parte de quem compra máquina ou capital de giro de quem vende a máquina – 17 p.p. das vendas são feitas com pagamento à vista. A utilização do Produto Finame encolheu, quase desapareceu, e esse quadro não decorre especificamente da crise da pandemia da Covid-19, é consequência, principalmente, do encarecimento das linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) depois da adoção da Taxa de Longo Prazo (TLP) em 2017. Os investidores se negam a financiar seus investimentos com altos juros (média de 11% a.a.) do BNDES. Com isso, a taxa de investimentos no Brasil fica entre 15% e 16% do PIB. Todos sabemos que essa taxa deveria estar entre 24% e 25% do PIB para que o país possa crescer a taxas acima de 3% a.a. de forma sustentável.

  • Para vender para o mercado externo, qual a necessidade do setor de máquinas e equipamentos?

Bens de capital são adquiridos como investimentos produtivos, o que implica custos elevados pelos compradores e dependem de linhas de financiamento com prazos mais extensos para amortização. O custo do financiamento de uma máquina é, portanto, atrelado ao seu preço e, como tal, constitui um diferencial de competitividade. Por essa razão, a competitividade do setor é, em grande parte, determinada pela disponibilidade de crédito para investimentos a juros compatíveis com o retorno do investimento. No caso do mercado internacional, a competitividade depende ainda de que os juros das linhas de financiamento sejam competitivos, isto é, estejam em patamares semelhantes aos oferecidos
pelos concorrentes internacionais. Em linha com o mencionado anteriormente, a difusão do acesso a crédito oficial e seguro de crédito às exportações ainda precisa ser amplificada. No atual cenário de indefinição sobre a reestruturação destes instrumentos de apoio às exportações e sobre a garantia de recursos no orçamento federal para esta finalidade, um percentual muito restrito de empresas exportadoras consegue realizar suas operações de comércio exterior sob o amparo deste sistema, o que não é justificável para o tamanho da nossa economia e pelo que se quer alcançar com a inserção do nosso país nas CGVs. É premente a reforma do sistema de financiamento para que outras empresas possam acessar o mecanismo e atuar mais fortemente no mercado externo. Com relação ao seguro de crédito à exportação, é urgente ampliar o número de operações cobertas e criar mecanismos de atuação governamental nas áreas com limitada oferta do setor privado. Menos de 1% das exportações de máquinas e equipamentos conta com financiamentos.

7. A Abimaq desenvolve uma ação perene de promoção comercial às exportações de máquinas e equipamentos há mais de duas décadas, com o apoio da Apex.

  • Como as empresas do setor continuam exitosas nas vendas para o exterior, mesmo com tantas barreiras?

Nosso foco é totalmente direcionado para identificar os desafios que a indústria de máquinas e equipamentos encontra no processo de internacionalização. Há vinte anos, trabalhamos para fortalecer a imagem do país como fornecedor de tecnologia e soluções para a indústria, nossas máquinas e equipamentos possuem capacidade tecnológica e inovação compatíveis com as exigências do mercado mundial. Por meio do Programa Brazil Machinery Solutions (BMS) – resultado da parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) – a Abimaq tem fortalecido a indústria brasileira como um parceiro competitivo no exterior. Além do constante investimento na capacitação do empresário brasileiro para atuação no mercado externo, estamos presentes nas principais feiras internacionais, seja promovendo a exposição de marcas brasileiras, seja para a prospecção de oportunidades para o setor. Fruto dessa dedicação é a ampliação de empresas associadas que passaram a exportar; nos anos 2000 cerca de 15% eram exportadoras, atualmente 56% atuam no mercado internacional. Aproximadamente um terço do faturamento do setor é obtido por meio das exportações. Outro ponto a destacar é a assessoria e a defesa de interesses que a Abimaq realiza para que um maior número de empresas da nossa indústria possa estar presente no mercado internacional. Resultado dessa orientação, foi a criação, em 2015, da Campanha Esforço Exportador que busca desmistificar o comércio exterior e apoiar as empresas, por meio de parceiros diversos, em seu processo de internacionalização. Sabemos que atuar em outros países não é uma tarefa simples, mas com o apoio da Associação e de outros parceiros, uma empresa pode garantir, entre outros ganhos, maior resultado financeiro e melhoria da sua imagem perante o mercado doméstico.

  • Qual a importância das feiras na promoção comercial do setor, e qual a conveniência com as feiras e encontros digitais, pós-pandemia?

As feiras internacionais ainda representam um dos mais importantes instrumentos de promoção comercial. Para as empresas que estão iniciando o processo de exportação, são uma excelente oportunidade não só para identificar potenciais clientes e distribuidores/representantes, como também para conhecer a realidade do mercado em que atua. Para as empresas com muita experiência, a feira representa um momento de avaliação e elaboração de novas estratégias. O panorama imposto pela pandemia da Covid-19 mudou repentinamente o modus operandi da indústria ligada aos eventos, a tecnologia é essencial para a atuação e a expansão das empresas no contexto nacional e internacional, onde os encontros digitais se tornaram a única opção segura de estar em contato com seus clientes. No entanto, os ambientes físico e virtual não são excludentes, mas sim complementares, e apresentam oportunidades que no futuro podem ser ampliadas. Até o momento não foi criado um modelo de feira digital com sucesso similar ao das feiras presenciais. As ferramentas disponíveis ainda têm pouca eficácia na busca por novos clientes.

  • Ter financiamento pré ou pós-embarque – é importante estar no pacote/produto/preço/qualidade na hora da negociação internacional?

Por se tratar de bens de investimento, a competitividade das operações do setor é estreitamente vinculada ao acesso de instrumentos de financiamento, o que também se aplica aos financiamentos pré e pós-embarque. O Executivo está, neste momento, discutindo a reforma do sistema de apoio às exportações, e temos sido muito vocais nessa discussão, não só pela importância que o sistema tem para apoiar as empresas que produzem bens seriados ou sob encomenda, de maior valor agregado, mas para adequar o mecanismo a uma maior concorrência encontrada no comércio exterior. Hoje, os países estão cada vez mais agressivos com suas políticas de apoio aos seus exportadores e o Brasil precisa se adequar rapidamente a esse campo para não ficar ainda mais para trás nas trocas comerciais – como todos sabem, atualmente, representamos 1,2% do comércio internacional, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (2018). O Brasil precisa aumentar seu fluxo de comércio e, para isso, são necessárias ferramentas para a inserção das empresas no comércio internacional.

  • E, oferecer assistência técnica é importante também ao cliente internacional? Há obstáculos para prestar esses serviços que poderiam ser eliminados ou simplificados?

Sem dúvida nenhuma, a assistência técnica é importante para o cliente internacional. Costumamos dizer que a relação fornecedor e cliente da indústria de máquinas é uma relação duradoura. É crucial que o seu funcionamento esteja em perfeita ordem, evitando prejuízos à produção e à produtividade de uma indústria. O obstáculo para a assistência técnica internacional está na agilidade da prestação do serviço, seja para um atendimento preventivo ou na venda de peças de reposição. Por isso, é essencial que as empresas invistam na capacitação de representantes e distribuidores locais, assim a distância deixa de ser uma barreira no relacionamento.


8. Em relação aos serviços, como o setor vem incorporando o processo de servitização (servitization) em curso no mundo?

A servitização não é uma novidade, o oferecimento de serviços atrelados aos seus produtos é uma tendência já de algum tempo, que visa melhorar a competitividade e atender as expectativas dos clientes. Com o aparecimento de novas tecnologias digitais ligadas à quarta revolução industrial vários serviços, que antes eram extremamente custosos, foram viabilizados a custos competitivos. Tecnologias, tais como sensoriamento remoto de máquinas e telemetria, internet das coisas, sistemas de simulação e comissionamento virtual, computação em nuvem, realidade aumentada, big data, analytics e machine learning, inteligência artificial e integração de sistemas permitiram a introdução de novos serviços,
agregados ou não à venda de máquinas e equipamentos. Serviços como a incorporação de análises preditivas de manutenção, a garantia de performance das máquinas e ações de melhoria a partir dos dados coletados, até a locação e operação remota de uma máquina. O serviço de comissionamento de uma linha de produção, que antes era realizada na hora da implementação, agora pode ser simulado e todas as máquinas e programas ajustados antes da entrega. O rastreamento de produtos agora ficou muito mais fácil com a aplicação de soluções em Blockchain. Os serviços de treinamento em operação e manutenção de máquinas também tem sido facilitado com as ferramentas de realidade aumentada.

Enfim, são diversas possibilidades de agregação de valor pela incorporação de serviços que as empresas estão implementando e incorporando em suas estratégias de negócios, dada a correlação positiva entre o fornecimento de serviços complementares e a melhoria de desempenho financeiro e operacional.


9. Em relação ao mercado internacional pós-covid, quais mercados sofrerão mais para se recuperarem?

A crise da pandemia de Covid-19 teve impactos severos em todos os mercados em função da redução da demanda global, do aumento dos custos de frete, com os efeitos da desagregação de cadeias de valor, e nos custos de produção. Muitas das discussões estabelecidas sobre as estratégias de retomada do crescimento e da contenção dos efeitos negativos da crise no comércio giram em torno da reavaliação dos modelos econômicos estabelecidos, especialmente em relação à produção internacional de bens. As estimativas sobre a recuperação esperada para 2021 ainda são incertas e a capacidade de retomada da atividade econômica dos países depende da eficácia das respostas dos governos na contenção da pandemia. Como já é esperado, a demanda externa ocupará uma posição de centralidade na retomada da atividade econômica para todos os países.


10. Para ganharmos mais mercados, o que deveria mudar em termos de políticas públicas?

Para que nossa participação no comércio global seja expandida, as políticas públicas do país devem ter foco, em primeiro lugar, na eliminação dos fatores estruturais que compõem o Custo Brasil. Em paralelo, são necessárias políticas de difusão da cultura exportadora entre as empresas, sobretudo, entre as pequenas e médias. Para isso, é urgente aumentar a eficiência e eficácia do apoio ao processo de internacionalização das empresas brasileiras, fornecedoras de bens e serviços, por meio de uma reorganização dos serviços de suporte às exportadoras.


11. Dadas a tradição e a história de mais de oitenta anos da Abimaq, quais as diretrizes estratégicas e ações que serão fundamentais para os próximos anos?

Em vista da ênfase conferida pelo atual governo à agenda de liberalização comercial, a Abimaq entende como fundamental para os próximos anos o acompanhamento das ações voltadas à revisão tarifária por meio da reforma da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul e pelas frentes negociadoras em curso.

Defendemos que a abertura comercial seja realizada de forma transversal, gradual e sincronizada com reformas para mitigar os fatores que compõem o Custo Brasil, como a alta carga tributária e o elevado custo de juros sobre o capital. A condução da abertura tarifária equânime, equilibrada e sustentável deve também obedecer a uma lógica de escalada tarifária, em que os insumos teriam tarifas menores que os bens finais, e de horizontalidade. São alvo de especial preocupação do setor as tratativas para a assinatura de acordos comerciais com países asiáticos. Nossa posição é que os acordos comerciais devem também considerar os interesses da indústria, além da agricultura e serviços, e o processo negociador deve obedecer a uma governança para que o setor produtivo e a sociedade em geral possam compreender as oportunidades e os desafios dessas agendas. Para isso, faz-se necessário, entre outros elementos, a elaboração de estudos de impacto e viabilidade, consultas públicas aos agentes econômicos para identificação de interesses ofensivos e defensivos. Por seu potencial de promover ganhos de competitividade ao setor, os setores público e privado devem focar em ações de facilitação de comércio, como a redução de custos operacionais e logísticos do comércio exterior.

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