Internacionalizar MPEs e Financiar as Exportações

26 Janeiro 2021
/ Artigos

Antonio Carlos da Silveira Pinheiro
Presidente da Funcex

No futuro, os historiadores irão analisar o biênio 2020-2021 e caracterizar esse período como um raro desastre. Aliás, hoje, alguns analistas econômicos já estão fazendo esta análise comparando a crise atual, com períodos passados. A simultaneidade e intensidade do contágio na saúde humana e nas finanças em geral, é um evento singular e único que pode ser caracterizado como um desastre na história da humanidade.

Apesar desse evento, a possibilidade de inserção de micro e pequenas empresas (MPEs) no mercado internacional – nesse período de pandemia – tornou-se uma realidade via digital trade. Hoje, já há, no Brasil, plataformas de comercialização de bens e (até serviços) vocacionadas para oferta de soluções de e-commerce, notadamente para países da América Latina. Essas soluções não existiam antes da Covid – nem para bens, nem para serviços; mas agora plataformas nacionais especializadas em meios de pagamento internacionais ou em dados de Siscoserv estão – de modo apartado dos seus negócios originais – ofertando soluções de comercialização externa. Por sua vez, a logística para a entrega do bem, neste caso, pode ficar à cargo, ou dos serviços dos Correios e/ou dos Courriers. Contudo, hoje em dia, tanto as MPEs exportadoras como as não exportadoras ainda desconhecem esse tipo de solução, e não têm cultura de usar o e-commerce e o digital trade internacional. Incentivar ações para a difusão de Cultura Exportadora é um primeiro passo para obter exportações iniciais para esses mercados, e assim gradualmente envolver essas empresas em mercados geográficos próximos.

Vale ainda lembrar que o comércio internacional de pequenos pacotes e que atende ao consumidor final apresentou taxas positivas de expansão nesse momento de crise de Covid-19, colocando pressão na cadeia de suprimentos e entrega dos grandes players dos marketplaces. Por outro lado, com a política de distanciamento humano, sobretudo transfronteiras, uma das formas usadas para entrar no mercado internacional – feiras e exposições – foi adiada sine die, e remarcada para outras datas.

Neste contexto é hora das MPEs aprenderem a usar o digital trade, e a fazer vendas e marketing internacional em época de mídia social e digitalização de negócios. Tirar boas fotos de produtos e serviços para fazer up load nas redes sociais, ter uma boa edição de texto em diferentes línguas – mesmo com auxílio do google tradutor – é uma inovação para se apresentar ao mercado. Descobrir como fazer hashtag, e estória curta no instagram também são inovações. Também aprender a usar o LinkedIn Premium hoje é um bom momento para identificar novos grupos de compradores internacionais. Isso sem falar de assinar e participar de plataformas de comércio do tipo Ali Baba etc. Sem dúvida, fazer tudo isso é internacionalizar essas empresas em um ambiente digital.

Logo, essa inovação tem de ser difundida e adaptada entre as MPEs que queiram vender e fazer marketing internacional em contexto de digitalização dos negócios. É hora de empreendedores e gestores dessas empresas começarem a aprender a usar o digital trade para internacionalizar seus negócios. Também é hora de os bancos públicos que já apoiam o segmento de pequenas e médias exportadoras – com ações de marketing internacional mediante disponibilização de espaços virtuais de “vitrine do exportador” – incentivarem o financiamento às exportações de pequenos valores, via disponibilização de cartão de crédito internacional, e soluções de pagamentos internacionais de baixo valor a custos competitivos. E, que haja uma percepção dos atores empresariais e públicos que lidam com a questão de economia e indústria criativa sobre como incentivar o fomento e a criação de agências de vendas e marketing digital focadas para atender ao mercado internacional.

Frente às incertezas e aos riscos ainda prevalecentes no comércio internacional, é hora de tanto as agências de promoção comercial de exportações quanto as associações empresariais incentivem e fomentem a criação de agências de vendas e marketing privadas que comecem a difundir feiras virtuais, seja por produtos/serviços ou por mercados. Dever-se-ia incentivar o apoio das associações de empresas de caráter nacional que contam com recursos de agências de promoção de exportação federal de modo a promoverem para as MPEs ações de marketing virtuais associadas a ações presenciais tipo pop up retail em lojas de departamento ou shoppings centers em países em desenvolvimento ou desenvolvidos.

Logo, a hora é para mobilizar empreendedores e empresas das MPEs a descobrirem oportunidades de exportação via sua internacionalização, mesmo num ambiente de retração generalizada no exterior da atividade econômica. De fato, há espaço agora para incentivar a inserção de MPEs em novos canais de comercialização e distribuição, e massificar a inserção dessas empresas via sua internacionalização. Isso viabilizaria a venda e pedidos de exportação, e incentivaria a internacionalização das empresas como também a demanda por trade credit finance.

Aliás, Financiamento e Seguro às Exportações; Custo Brasil e Competividade são temas centrais nesse número da RBCE. Temos também assuntos tradicionais como política industrial, defesa comercial e OMC. Nesta RBCE criamos um espaço cativo para que líderes empresariais possam expor suas ideias sobre temas de singular relevância na agenda de problemas brasileiros. José Velloso, presidente da Abimaq, prestou um depoimento muito além de Máquinas e Equipamentos e sobre Competitividade e Custo Brasil, inclusive ressaltou como a disponibilidade de financiamento pré e pós-embarque é fundamental para obter pedidos de exportação.

Sem dúvida, buscar aperfeiçoar as condições de acesso ao sistema de financiamento e seguros às exportações é uma política atual do Ministério da Economia. Suas diretrizes são: a) fazer a revisão regulatória dos atos normativos e administrativos, legais e infralegais; b) reduzir a dependência orçamentária do sistema e ampliar a participação do setor privado, e c) aprimorar os mecanismos de governança, gestão de riscos e transparência.

Ao longo dos seus 45 anos de existência, houve três momentos decisivos em que a Funcex incentivou a transformação do sistema de financiamento oficial às exportações. Como a Cacex foi extinta em 1990, a oferta de trade finance com fontes de recursos em moeda nacional foi praticamente abolida. Para suprir essa falta, houve uma entrada gradual do BNDES no sistema de financiamento às exportações com base em fonte de recursos do FAT. Dada a decisão naquela época do BNDES em desenvolver produtos e implantar “trade data flow system” voltados para a exportação, a Funcex com uma equipe de seus pesquisadores junto com ex-funcionários da Gefin-BB apoiaram firmemente a implantação da então linha Finamex. Em 1996, a Funcex produziu estudos singulares sobre Seguro e Garantias às Exportações, e Financiamento às Exportações que muito contribuíram para a revisão das normas relativas às taxas de juros praticadas no sistema de equalização, e à formatação da então SBCE. Esses estudos foram publicados à época na RBCE.

E, hoje, em face da decisão do Ministério da Economia de abrir a discussão da reforma do sistema de apoio oficial à exportação concedido pela União, a Funcex vem conduzindo um diálogo amplo com o governo e com o setor privado com vistas a contribuir para um maior crodwing in do setor privado na atividade de seguro e financiamento às exportações. Esse é um exemplo de ressignificação concreta da instituição que vem sendo implementado nesse breve período em que estamos à frente da Funcex.

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