Mudança de rota do comércio exterior brasileiro no período de 1997 a 2020

30 Junho 2021
/ Revista Brasileira de Comércio Exterior

José Aroudo Mota é Pesquisador sênior da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação e Infraestrutura (Diset) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Doutor em Desenvolvimento Sustentável e Mestre em Finanças pela UnB.
Rodrigo César de Vasconcelos dos Santos é Pesquisador da Diset/Ipea.  Doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pelotas.  


O objetivo deste artigo é analisar a mudança de rota do comércio exterior brasileiro no período de 1997 a 2020. Neste contexto, foram analisadas as principais exportações e importações do Brasil para China, Estados Unidos e Argentina.
O Brasil sempre teve os Estados Unidos como parceiro preferencial de comércio e a Argentina, a partir do acordo do Mercosul, mas com a entrada da China no cenário internacional houve uma mudança de rota do comércio exterior brasileiro. Com os Estados Unidos o ponto de inflexão ocorreu em 2009 e com a Argentina, em 2003. Assim, o novo player, a China, com uma demanda superaquecida por produtos básicos, em decorrência de suas altas taxas de crescimento econômico, conseguiu ultrapassar estes dois parceiros tradicionais de comércio com o Brasil.   


A ROTA DE COMÉRCIO BRASIL-CHINA

A rota do Brasil à China no período de 1997 a 2020 totalizou uma corrente de comércio de US$ 1.025,4 bilhão, com exportações de US$ 597,8 bilhões (correspondendo a 3,8 bilhões de toneladas de produtos exportados) e importações de US$ 427,6 bilhões (correspondendo a 156,2 milhões de toneladas de produtos importados), aproximadamente, representando o maior fluxo comercial do Brasil com um país na série histórica analisada, proporcionando um superávit de US$ 170,2 bilhões. Desde 1997 o Brasil já exportou para a China, dos cinco principais produtos da pauta de negócios, commodities agrícolas e minerais, sobretudo soja e minério de ferro e seus concentrados, os quais responderam por 60,7% do total exportado no mesmo período. Além desses produtos, com destaque o Brasil também exportou óleos brutos de petróleo, carne de gado bovino, carne de frango, açúcar, pastas aglomeradas de madeira e tabaco. No período de 1997/1998 a 2019/2020, cujos ciclos correspondem aos períodos de gestão do governo federal, há uma nítida predominância das exportações de soja em relação às receitas geradas pelo minério de ferro (Gráfico 1). No ano de 2007 e no período de 2009 a 2012 o minério de ferro obteve o primeiro lugar no ranking das exportações brasileiras para a China, as quais foram influenciadas pela forte e constante demanda deste país, enquanto nos demais anos da série histórica a soja apresentou o primeiro lugar no ranking de exportações entre os dois países.

Gráfico 1. Exportações brasileiras de minério de ferro (e seus concentrados) e soja para a China em períodos selecionados, de 1997 a 2020 (em US$ milhões)

Fonte: Elaborada pelos autores a partir de www.comexstat.mdic.gov.br, acesso em 18 de fevereiro de 2020.
Quanto às importações brasileiras de produtos da China, no período de 1997 a 2020, houve uma concentração em produtos da manufatura e industrializados, tais como componentes para aparelhos e equipamentos, peças e acessórios para máquinas, processadores e drivers, aparelhos telefônicos, embarcações leves e carros alegóricos, peças e outros componentes industriais.

A ROTA DE COMÉRCIO BRASIL-ESTADOS UNIDOS

A rota do Brasil aos Estados Unidos no período de 1997 a 2020 totalizou uma corrente de comércio de US$ 1.011,8 bilhão, com exportações de US$ 501,6 bilhões (correspondendo a 0,64 bilhões de toneladas de produtos exportados) e importações de US$ 510,2 bilhões (correspondendo a 0,49 bilhões de toneladas de produtos importados), aproximadamente, e com déficit de US$ 8,6 bilhões, representando o segundo maior fluxo comercial do Brasil com um país na série histórica analisada. Neste período, o Brasil exportou para os Estados Unidos, dos seis principais produtos da pauta de negócios, commodities tais como café e produtos manufaturados (óleos de petróleo, calçados, pastas químicas e aviões), os quais responderam por 30,0%, aproximadamente. Além destes produtos, com destaque o Brasil também exportou ouro não monetário, aparelhos receptores de radiodifusão e aparelhos transmissores, automóveis, álcool etílico e peças para turbojatos (Gráfico 2).


Gráfico 2. Exportações brasileiras dos principais produtos para os Estados Unidos em períodos selecionados, de 1997 a 2020 (em US$ milhões)

Fonte: Elaborada pelos autores a partir de www.comexstat.mdic.gov.br, acesso em 10 de março de 2020. Nas exportações estão incluídos: aviões, café, óleos de petróleo, produtos semiacabados de ferro e aço e pastas químicas de madeira.  

Portanto, a pauta de exportações do Brasil para os Estados Unidos é composta de uma parcela ínfima de commodities e a outra fortemente concentrada em produtos manufaturados. Quanto às importações, o Brasil comprou dos Estados Unidos neste período a cifra de US$ 510,2 bilhões, cuja concentração comercial se ancorou em produtos para comunicação e informática, peças para máquinas e turbojatos, inseticidas, medicamentos e óleos de petróleo, dentre outros.


A ROTA DE COMÉRCIO BRASIL-ARGENTINA

A rota de comércio do Brasil para a Argentina no período de 1997 a 2020 totalizou uma corrente de comércio de US$ 516,6 bilhões, com exportações de US$ 281,0 bilhões (correspondendo a 261,7 milhões de toneladas de produtos exportados) e importações de US$ 235,6 bilhões (correspondendo a 293,8 milhões de toneladas de produtos importados), aproximadamente, e com superávit de US$ 45,4 bilhões, representando o terceiro maior fluxo comercial do Brasil com um país na série histórica analisada (Gráfico 3). Neste período, o Brasil exportou para a Argentina, dos seis principais produtos da pauta de negócios, produtos manufaturados (veículos para o transporte de pessoas e mercadorias, minério de ferro aglomerado em forma de pellets e briquetes, aparelhos telefônicos e de comunicação, tratores e demais produtos), enquanto as importações mais importantes da pauta de comércio entre os dois países se restringiram aos veículos para o transporte de pessoas e mercadorias, trigo e centeio e malte. Devido aos acordos bilaterais no âmbito do Mercosul (especialmente a adoção de um sistema de cotas) houve no período analisado um fluxo contínuo de exportação e importação de veículos para o transporte de pessoas e mercadorias, o qual representou um déficit para o Brasil no valor de US$ 6,8 bilhões, com exportações de US$ 64,0 bilhões e importações de US$ 70,8 bilhões.  

Gráfico 3. Exportações brasileiras dos principais produtos para a Argentina em períodos selecionados, de 1997 a 2020 (em US$ milhões)

Fonte: Elaborada pelos autores a partir de www.comexstat.mdic.gov.br, acesso em 30 de março de 2020.
Obs.: Incluem somente as exportações de veículos para transporte de pessoas e mercadorias.

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES DE POLÍTICAS PÚBLICAS

O Brasil é um forte player no comércio internacional, tendo como destaque exportações de commodities agrícolas e minerais para a China, enquanto importa daquele país produtos manufaturados. Na série histórica analisada, o Brasil exportou para a China ao preço de US$ 157,30 a tonelada e importou a US$ 2.737,42 a tonelada. Em relação ao comércio com os Estados Unidos, o Brasil exportou e importou basicamente produtos industrializados, cujo preço médio de exportação, no período de 1997 a 2020, foi de US$ 779,06 a tonelada e de importação, no valor de US$ 1.036,82 a tonelada. Com a Argentina, o comércio foi pautado pela exportação de produtos industrializados brasileiros e pela importação de industrializados e trigo e centeio, tendo exportado seus produtos a um preço médio de US$ 1.073,61 a tonelada e importado a um preço médio de US$ 801,76 a tonelada.

Como demonstra a série histórica de 1997 a 2020, em nível de preços médios, para cada US$ 1,00 de produtos exportados para a China o Brasil despendeu US$ 17,40 na importação de produtos deste país; no caso dos Estados Unidos, esta mesma relação foi de US$ 1,33 e da Argentina, de US$ 0,75. No caso do comércio com a China, como pontuam Ribeiro e Domingues (2020) “... Não podemos – nem devemos – prescindir desse comércio, mas precisamos nos esforçar para diversificar a pauta de exportação”, além do que, como novo desafio de política industrial o Brasil necessita também verticalizar o seu processo produtivo com a agregação de valor dos produtos básicos exportados, sobretudo para a China e reascender o comércio com os Estados Unidos e a Argentina.


REFERÊNCIAS
MINISTÉRIO DA ECONOMIA. COMEX STAT. 2020. Brasília. Disponível em www.comexstat.mdic.gov.br. Consultas em 18 de fevereiro, 10 e 30 de março de 2020.
RIBEIRO, Orlando Leite; DOMINGUES, Gustavo Cupertino. 2020. O Desempenho das exportações do agronegócio nos primeiros sete meses de 2020. Revista Brasileira de Comércio Exterior – RBCE, Ano XXXIV, n° 145, out./dez. Rio de Janeiro: Funcex – Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior.

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