O que é um depot e por que o exportador/importador precisa saber como funciona?

30 Junho 2021
/ Revista Brasileira de Comércio Exterior

Eduardo Correia Miguez é especialista portuário na Companhia Docas do Rio de Janeiro e membro do Conselho de Logistica e Transporte da Associacão Comercial do Rio de Janeiro


Depot é o depósito de contêineres vazios onde esses equipamentos ficam armazenados aguardando serem enviados para colocar a carga de algum cliente. De maneira geral, todo local onde existe um porto que movimenta contêiner possui depots. Mas como funcionam esses depósitos e qual a relevância deles em uma exportação?

Os contêineres pertencem aos armadores (empresas de navegação), podendo ser equipamentos próprios ou alugados. Enquanto não estão navegando ou em operação de carregamento ou descarregamento em algum cliente, eles precisam ficar em algum local. E esse local é o depósito de contêiner vazio.

Os equipamentos vazios ficam em pilhas, geralmente, separados em função de características definidas. Esse processo de separação é muito importante, pois facilita o acesso rápido para movimentação dos contêineres e evita o envio de equipamentos errados para os clientes. Eles podem ser segregados em contêineres de 20’ e 40’, equipamentos comuns (chamados de dry) e equipamentos especiais (refrigerados, open top, plataforma etc.) e por qualidade (padrão café, padrão alimento, carga geral, bom para uso, off hire etc.). Essa última classificação tem uma importância muito grande para os exportadores. Vejamos por que.

Dependendo do diferente perfil de carga a ser embarcado é necessário um tipo de equipamento. Por exemplo, se eu for embarcar uma bobina de aço, em que se irá colocar pregos no contêiner para a peação (acondicionamento da carga), não é necessária a utilização de um equipamento novo, pois não faz diferença se as paredes do contêiner estão enferrujadas e o chão manchado de óleo, por exemplo.

Entretanto, se eu for embarcar sacas de café ou de arroz, é muito importante a utilização  de contêineres que não possuam ferrugens, parafusos aparentes ou manchas. Isso porque  pode gerar avarias na mercadoria, danificando os sacos e acarretando transtornos para o exportador e também para o importador que receberá a carga.

Os contêineres sofrem corrosões naturais com o passar do tempo e, a partir de um determinado ponto, fica economicamente inviável o conserto para torná-los aptos para receber as cargas mais delicadas. Portanto, se eu colocar um contêiner novo para embarcar uma carga que não tem essa exigência, terei um custo muito maior de reparo e estarei desgastando a frota desses equipamentos, gerando um desequilíbrio (desbalanceamento) na quantidade dos que estão disponíveis em um determinado local.

Pelo exposto, é fundamental que o exportador informe ao armador qual é a sua necessidade (restrição) quanto ao uso de contêiner, para evitar problemas de avarias e transtornos futuros. Com essa informação, os armadores serão capazes de informar aos depots que operam seus equipamentos para que eles possam fazer a correta segregação dos mesmos e liberar para carregamento de acordo com a necessidade de cada cliente.

O processo logístico do transporte na exportação se inicia quando o transportador rodoviário recebe do armador a informação de que deve coletar um contêiner em um depot definido e enviá-lo a determinado cliente para ovação (carregamento) da mercadoria. Nesse momento, o depósito também é informado para qual cliente o contêiner deve se destinar e, portanto, o depot deve separar e liberar o equipamento de acordo com a exigência previamente informada do usuário (claro, dependendo da disponibilidade do equipamento no local). Um depot, geralmente, presta serviço para mais de um armador, portanto, também é feita a segregação de acordo com a empresa  de navegação a qual o equipamento pertence.

Dessa forma, o caminhão é carregado com o contêiner e vai até a planta do exportador (ou armazém) para fazer o carregamento. Quando o equipamento chega, é importante que antes do carregamento seja realizada uma vistoria no contêiner. Isso evita transtornos futuros e, caso seja detectada qualquer divergência no padrão que foi solicitado, o caminhão deve retornar ao depósito para coletar um novo contêiner para a operação. Quando a carga está devidamente acondicionada, o caminhão, então, se direciona ao porto de embarque.

No caso da importação, quando o contêiner é descarregado no cliente no destino final, esse equipamento vazio deve ser direcionado para o depot indicado pelo armador. Quando o caminhão chega ao depósito é realizada uma vistoria para identificar avarias no contêiner. Se for detectada avaria, o contêiner vai para uma pilha segregada para receber o reparo necessário. Caso não haja avaria ele é direcionado ao pátio para armazenamento. Em muitos casos, o reparo necessário é cobrado do usuário do contêiner (que foi o responsável pelo pagamento do frete marítimo). Ele pode variar de uma simples lavagem até um reparo de estrutura e posterior pintura. Esse é um item um pouco complexo, pois o custo total de reparo já é diluído (rateado) no valor do frete, que compõe a estrutura de custo das empresas de navegação.

Outro fator que impacta muito para o exportador e o importador é relativo à demanda por transporte marítimo e à disponibilidade de contêiner na origem. Quando há uma queda nos embarques, esses contêineres ficam parados nos depósitos e, com isso, geram uma sobrecarga na capacidade de armazenagem dos depósitos, dificultando o processo de armazenagem e de seleção dos equipamentos. Esse fato acarreta uma demora excessiva para receber os contêineres que chegam vazios e para liberar os que precisam ir para os clientes. Em alguns casos, esse problema pode fazer com que algum exportador perca o prazo para embarque no navio.

Por outro lado, pode ocorrer também uma falta de contêiner em determinado local. Isso acontece em função do desbalanceamento entre embarques e desembarques. Caso um porto receba muitos contêineres com determinada característica e dimensão, mas não tenha muita demanda para embarcar contêineres com essa característica, eles ficarão vazios e terão que ser remanejados para outros locais. Por exemplo, se um porto recebe muitos contêineres de 20’ cheios, os depósitos terão uma grande quantidade desse equipamento para disponibilizar. Mas caso os embarcadores que exportam por esse porto precisem embarcar os produtos em contêineres de 40’, haverá um desbalanceamento, pois os equipamentos de 20’ terão que ser removidos vazios para outros portos e, de forma análoga, contêineres de 40’ terão que ser transportados vazios para atenderem à demanda desses embarcadores. Isso também torna o frete marítimo mais caro para esses exportadores.

Podemos ver que os depots são fundamentais na cadeia do comércio exterior e diversos fatores podem contribuir ou prejudicar o bom funcionamento dos processos de embarque. Os custos que os armadores têm com esses depósitos são: custo de armazenagem, vistoria, reparo e movimentação para colocar e retirar das pilhas. Se houver armazenagem de contêiner refrigerado, haverá também custos para testes desses equipamentos. Todos esses custos compõem o valor final do frete aos embarcadores, que deverão estar atentos para evitar custos extras e desgaste com seus clientes finais.

Portanto, pode-se observar que os depósitos de contêiner vazio são fundamentais para a logística de contêineres, impactando nos custos do frete marítimo e também na qualidade do serviço prestado pelo embarcador a seus clientes. O conhecimento é fundamental para entender o mercado como um todo e para buscar o planejamento de oportunidades de melhoria e redução de custo, de forma a se antecipar a potenciais  riscos do mercado.

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