Aspectos da carga aérea no comércio exterior

8 Julho 2022
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por Alexandre Telles
Gestor Comercial do Terminal de Cargas do Aeroporto de Brasília, membro do comitê do Plano Nacional da Cultura Exportadora (PNCE) e membro do comitê consultivo do Programa de Qualificação para Exportação (Peiex-RN).

No Brasil, o modal aéreo ainda tem pouca expressividade nas exportações da cadeia logística de um produto. No entanto, ele apresenta vantagens que os outros modais não oferecem. Diante da crescente globalização e da necessidade cada vez mais forte de reduzir distâncias de forma ágil e segura, os aviões têm se tornado essenciais nesse processo, especialmente se falamos de comércio internacional. A velocidade não se resume apenas ao transit time do aeroporto de origem ao aeroporto de destino. Os processos e as rotinas, em geral, costumam ser mais simples do que transportar uma carga por navio. Desde a recepção da carga no aeroporto para a entrega à companhia aérea e a facilidade com que se realizam os transbordos e conexões sempre que necessário, tudo ocorre de forma rápida, o que reforça o conceito de que toda carga transportada por avião é tratada como urgente. Além disso, o pouco manuseio e o tempo reduzido de exposição reduzem a chance de danos, extravio ou roubo. Isso traz segurança e credibilidade para se transportar carga, especialmente quando se trata de carga internacional.

O valor e o peso do produto são determinantes na escolha do modal aéreo. É seguro dizer que mercadorias de alto valor agregado tendem a ser transportadas por via aérea, especialmente se houver pouco volume. É natural que devido ao seu valor e senso de urgência, essas mercadorias sejam movidas em lotes relativamente pequenos, o que os torna adequados para o transporte aéreo. Para usar um exemplo extremo, uma consumidora final não compra joias em quantidade suficiente para encher um contêiner marítimo. Embora menos onerosos que joias, produtos eletrônicos, instrumentos de precisão, maquinários industriais sofisticados e outras mercadorias de alto valor também tendem a ser menores em tamanho e peso.

Outro aspecto a ser analisado é que certos produtos são extremamente sensíveis ao tempo, seja à exposição ou por deterioração, tornando o transporte aéreo a única alternativa viável. Isso pode incluir uma ampla gama de produtos perecíveis, produtos médicos e produtos sazonais, que devem cumprir prazos de entrega muito específicos e cuja produção oferece opções limitadas de transporte.

Isso significa que as economias de tempo obtidas com a carga aérea valem mais quando envolvem mercadorias de alto valor. Mas, a decisão de se transportar uma mercadoria por via aérea depende da percepção do remetente sobre sua importância relativa. Além disso, outros fatores não relacionados ao valor da mercadoria influenciam cada vez mais o processo de seleção do modal pelos embarcadores. Para entender melhor cada fator, e como ele interage com os demais, é necessário primeiro explorar como os modos de transporte são selecionados, e reconhecer que, em geral, os embarcadores não se importam com o modo de transporte. Eles se preocupam com a remessa chegando ao destino pretendido, no prazo e em boas condições, e com o custo do transporte. Como as operações de carga aérea podem oferecer ao expedidor o benefício de um reabastecimento rápido e constante, os níveis de estoque podem ser reduzidos. Esse elemento de velocidade permite que um produtor envie produtos selecionados para seus clientes na hora certa, em vez de ter que operar grandes áreas de armazenamento.

Ao reduzir os níveis de estoque, uma empresa pode liberar mais capital, diminuir os custos de manutenção de estoque e minimizar o processo de obsolescência. Em resumo, a carga aérea oferece os benefícios de velocidade, confiabilidade, segurança e redução do custo de estoque. A velocidade do transporte aéreo permite que as empresas reduzam seu capital atrelado ao estoque em trânsito e proporcione maior segurança. Isso significa que produtos extremamente volumosos ou de baixa densidade não são adequados para transporte aéreo, seja porque não podem ser acomodados em uma aeronave
ou porque o custo resultante por libra-peso seria antieconômico. Por outro lado, a perecibilidade de um produto é um importante fator determinante na escolha do modo de transporte aéreo. Os produtos podem “perecer” em termos de utilidade econômica (valor), degradação física ou ambos. Um exemplo de perecibilidade econômica seriam os cartões de Natal, que possuem uma pequena janela de venda no varejo, e um exemplo de perecibilidade física seriam os mamões e mangas plantados e colhidos no Nordeste brasileiro e enviados para a Europa, pois estas podem se estragar (mesmo com refrigeração) dentro de algumas semanas após a colheita. Assim, esses bens não sobreviveriam à viagem oceânica do Brasil até esses destinos, deixando a carga aérea como a única opção viável de transporte. O mesmo vale para pescados, frutos do mar e carnes frescas.

Alguns produtos sofrem os dois tipos de perecibilidade – econômica e física – como no caso das flores tropicais, que
estão em grande demanda (a preços premium) durante a semana anterior ao Dia dos Namorados. Mesmo com pré-
-resfriamento e outras técnicas de preservação, flores tropicais e flores cortadas não podem ser armazenadas por longo prazo e, portanto, devem ser transportadas rapidamente dos produtores para os consumidores. Mais recentemente,
isso vem valendo para os produtos farmacêuticos. Em resumo, todos esses produtos sofrem os dois tipos de perecibilidade, por isso exigem carga aérea.

Outro fator a considerar é a previsibilidade da demanda. Quanto mais previsível for a demanda de um determinado produto, mais planejamento antecipado pode ser feito e mais flexibilidade o remetente tem para enviar por meio de opções mais baratas, porém mais lentas.

Produtos com características de demanda menos previsíveis proporcionam menos flexibilidade nas decisões de transporte. Se os embarcadores quiserem evitar oportunidades de vendas perdidas (chamadas de falta de estoque), eles devem expandir os estoques, o que aumenta os custos de transporte e potencialmente expõe a empresa a baixas contábeis, ou utilizar carga aérea para responder mais rapidamente aos aumentos de demanda.

Desde a recepção da carga no aeroporto para a entrega à companhia aérea e a facilidade com que se realizam os transbordos e conexões sempre que necessário, tudo ocorre de forma rápida, o que reforça o conceito de que toda carga transportada por avião é tratada como urgente

Os embarcadores devem ainda lembrar que ao escolherem o modal aéreo, as companhias aéreas consideram as viagens de ida e volta. Assim, elas oferecem grandes descontos nos voos de retorno fazendo com que algumas mercadorias possam ser transportadas por via aérea.

Além disso, as escolhas individuais do embarcador nem sempre se baseiam em análises quantitativas de produtos de transporte alternativos. Mas se os transportadores tentarem quantificar as compensações entre as diferentes opções de transporte, uma análise de custo total de distribuição pode ser uma poderosa ferramenta de tomada de decisão para escolher e usar o transporte aéreo.

Do exposto, pode-se estabelecer que o modal aéreo se mostra como vantajoso nas seguintes situações para:
• produtos de alto valor agregado;
• produtos perecíveis;
• partes e peças que precisam de rápida reposição; e
• produtos em geral que demandam entregas urgentes.

O transporte aéreo também tem se mostrado como importante aliado nas vendas por e-commerce. Potencializado pela chegada do Covid-19, o mercado sofreu uma enorme transformação, tendo o canal digital como grande ferramenta responsável pelas vendas de bens duráveis, não duráveis e perecíveis. Com a situação de endemia se tornando o “novo normal” no Brasil e no mundo, o comportamento dos consumidores tende a se manter em função do digital trade, sendo este tema de relevância tanto para o exportador, quanto para o importador. Estes precisam rever seus processos e compreender como será sua operação em meio ao ambiente de digital trade. Dentre as mudanças, garantir a reposição
rápida do estoque e focar na entrega imediata são essenciais, por isso, no mercado internacional, os exportadores e/ou importadores estão optando, cada vez mais, pelo transporte aéreo devido ao seu alto nível de alcance e à velocidade para encurtar de forma eficiente as distâncias entre o local de produção e o consumidor.

Para aqueles que desejam ingressar no mercado internacional, em especial os que vendem em pequenas quantidades ou pequenos volumes, o momento ainda se mostra favorável devido à desvalorização do real e ao aumento das vendas por meio das plataformas digitais. Para isso, o exportador e o importador precisam identificar como manter o canal de vendas online com informações claras e diretas, investir em sua identidade visual e na confecção das embalagens seguindo critérios previamente definidos pelo tipo de produto, pela logística e pelo cliente externo. Como exemplo prático, é possível encontrar pequenos empresários exportadores que criaram contas em marketplaces, como a Amazon, para vender cosméticos com apelo “brasiliense” para vários países e entregam seus produtos em menos de uma semana por meio de frete aéreo em exportações com agentes de carga internacional ou remessa expressa com empresas de courier.

Em função do esperado crescimento do digital trade nos anos vindouros, observar-se-á uma participação crescente do modal aéreo na movimentação de cargas no comércio exterior brasileiro. Esse crescimento da movimentação de carga aérea será decorrência da expansão do digital trade, mas este só aumentará se, e somente se, houver capacitação ampla de recursos humanos e retenção de talentos que consigam aplicar de forma eficiente o marketing digital em escala internacional para potencializar pedidos de exportação ou de importação.

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