Editorial RBCE 152

18 Setembro 2022
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por Antonio Carlos da Silveira Pinheiro
Presidente da Funcex

O mundo tem passado por vários ciclos e a cada momento uma nova tendência surge. Acompanhar essa dinâmica é imprescindível para um país se estabelecer no cenário internacional de maneira relevante.

A Funcex foi criada para ser um canal de diálogo franco e aberto entre o Setor Privado e o Governo Federal visando o alinhamento de ideias e posições. E tem cumprido seu papel. Ao longo de sua história, a Funcex realizou uma consistente defesa dos interesses empresariais, bem como auxiliou e incentivou a tomada de decisão de estratégias de internacionalização de empresas.

Em seus 46 anos de comprometimento com o mercado brasileiro, temos promovido a produção de conhecimento, a análise, a formulação, e a avaliação de políticas públicas ligadas ao comércio exterior. Essa iniciativa é que torna a marca Funcex conhecida como veículo de contribuição para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Os desafios atualmente enfrentados por nossa sociedade não estão restritos apenas às fronteiras nacionais. Faz-se necessário trilhar um firme processo de internacionalização de nossas atividades.

A Funcex torna-se instrumento estratégico para a realização de projetos especializados, executados no exterior para empresas e instituições. Essa nossa ação faz com que os riscos da internacionalização sejam evitados, os tempos sejam reduzidos e os resultados sejam cada vez mais satisfatórios.

A prestação e a venda de serviços no exterior pelas fundações de direito privado é uma exportação de serviços, o que contribui para o balanço de pagamentos de nosso país. O envolvimento com o exterior ocorre em estágios. Há todo um processo identificação de necessidades, de mercados prioritários, de potenciais clientes e de preparação de propostas condizentes com as necessidades dos mesmos. Em linguagem de negócios internacionais, essa fase requer um Seed Money para obter os contratos e realizar a internacionalização das fundações. Como estamos falando de serviços, uma parte do projeto pode ser executada no Brasil, com recursos econômicos e financeiros do país; outra pode ser realizada no exterior com recursos externos. O importante é perseguir e obter viabilidade econômico-financeira da fundação em sua operação no exterior.

Com relação à economia e às relações internacionais, na Funcex estamos atentos a dois temas principais: Desglobalização e Descarbonização, que deverão causar impactos na economia global no longo prazo.

O primeiro deles é o processo de desglobalização. Para muitos analistas, a globalização se e iniciou no começo dos anos 90 com a queda do muro de Berlim, o colapso da União Soviética e com o crescimento da China, que entrou na organização mundial do comércio em 2001, aceitando ser a grande fábrica do mundo, produzindo muitas coisas a preços baixos, e usando uma energia extremamente poluente, o carvão. Isso permitiu que a China fosse a fábrica do planeta e produzisse tudo mais barato, contribuindo para um processo desinflacionário. Agora estamos começando a viver um processo de reversão disso. Sendo assim, esse processo de desglobalização (que pode estar no começo) tende a ser, justamente, o oposto do que a globalização foi. Ou seja, se a globalização foi desinflacionária, a desglobalização tende a ser inflacionária.

O segundo “D”, talvez o mais importante para a inflação global, é o processo e o custo da descarbonização, uma ação necessária que está mais evidente em determinados pontos do planeta. Na Europa se assiste a uma forma mais avançada de descarbonização com a implantação de um Regime Comunitário de Licenças de Emissão da União Europeia. Esse sistema de crédito de carbono é mais revolucionário que o observado em outros lugares do mundo. Aliás, a União Europeia já tem um compromisso escrito em lei de atingir um equilíbrio, o NetZero (neutralidade de carbono), até 2050. Isso terá custos que pressionarão a inflação global.

Nesse ambiente VUCA – volátil, incerto, complexo e ambíguo – estamos focando na análise dos comercio exterior entre Brasil e Portugal ao longo dos duzentos anos nossa independência. Essa longa visão visa a nos calçar de argumentos de que há oportunidades de reforçamos nossos laços comerciais e de negócios com nossos irmãos portugueses para, simultaneamente, expandirmos a corrente de comércio e investimento entre Brasil e Portugal, assim como entre os países de língua portuguesa.

De fato, na nossa tradicional seção páginas azuis temos uma entrevista com o CEO da Dream Factory, Duda Magalhães, responsável pelo projeto Glocal e que frisa – acerca da importância ímpar de se adotar critérios ESG para se atuar tanto nas fronteiras nacionais, quanto internacionais.

A Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (FUNCEX) e a SOFID firmaram, em Lisboa, Memorando
de Entendimento que visa promover a internacionalização das empresas portuguesas, sobretudo as PMEs, através do financiamento a projetos em países em desenvolvimento na América Latina e na Ásia Como parte da celebração dos 200 anos da Independência, temos artigo de George Vidor sobre o intercâmbio comercial entre Brasil e Portugal ao longo dos últimos 200 anos.

Contamos, ainda, com a contribuição impar do Dr. Nicola Miccione sobre a potencialidade e viabilidade da cooperação técnica e econômica entre o Estado do Rio de Janeiro e Portugal nessa nova fase de expansão recíproca dos laços comerciais e de investimentos entre uma unidade sub-nacional do Brasil e o Estado Português. Nessa linha de oportunidade e desafios para expandir a corrente comércio temos ainda a contribuição de Renato Flores e de José Roberto Afonso.

Na coluna Comentário Internacional, nosso articulista George Vidor nos remete a uma jornada ao longo da transformação da nossa corrente de comércio e identifica alguns desafios para elevarmos nossas vendas de bens manufaturados, semimanufaturados e básicos. Nessa linha de oportunidades a serem capturadas pelas empresas, temos artigo sobre a necessidade de se incentivar a criação de uma plataforma de Negócios Internacionais para a potencializar a Economia do Mar no Rio de Janeiro. Lançar um olhar sobre o impacto do turismo receptivo internacional é objeto do artigo do Padre Omar Raposo. Este mostra o impacto direto do afluxo de turistas – notadamente religiosos – ao Corcovado, para o Rio de Janeiro.

Finalmente, esta edição da RBCE conta ainda com dois artigos, um de autoria de Guilherme Bastos – atual secretário de Política Agrícola do MAPA – que aborda os avanços feitos pelo atual governo sobre a política para o agronegócio. O outro trata dos incentivos para um maior crowding in pelo setor privado nas áreas de cambio, trade finance e seguro de crédito ás exportações, de autoria de Mario Cordeiro, economista-chefe da Funcex.

A atual conjuntura coloca o Brasil como a maior fronteira aberta de investimentos em um momento em que o mundo está turbulento. Com a turbulência externa e o excesso de liquidez internacional – são trilhões de dólares em busca de onde investir – o Brasil tem pelo menos três das vertentes que formam a estrutura da economia do futuro: o digital; o energético verde e sustentável; e o alimentar. Mas, para que possamos remunerar os investimentos externos que aqui aportarem precisamos expandir de forma perene nossa pauta de exportação de bens – agrícolas, semi-manufaturados e manufaturados – e sobretudo nossos serviços, bem como também, simultaneamente, internacionalizar nossas empresas e inseri-las nas cadeias globais de valor.

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